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anos de guerra não produziram apenas uma tragédia
em Angola. Produziram milhões de tragédias: 2 milhões
de mortos, 1,7 milhão de refugiados, milhares de órfãos,
200 pessoas mortas de fome por dia, 80 mil crianças, velhos,
homens e mulheres mutilados pelas milhões de minas semeadas
pelo país afora. Em Angola, são milhões de
tragédias, cada qual com um nome e uma história
de final infeliz.
A tragédia que se chama Margarida João fecha os
olhos e vê de novo o obus (artefato explosivo em forma de
bala gigante, disparado de longa distância) caindo sobre
o prédio onde morava em 1993, na cidade de Huambo, matando
35 vizinhos e amigos. Abre os olhos e vê a mãe, a
filha Joelma, de 16 anos, um tio e dois sobrinhos assassinados
a sangue frio pela guerrilha da Unita. Dorme e sonha com a fuga
em direção a Luanda, 20 dias a pé, bebendo
água da chuva, meio morta de fome. Acorda espremida com
outras 15 pessoas numa tenda de lona verde puída no campo
de deslocados de guerra Comandante Gika, na capital do país,
onde mora há seis anos e onde talvez viva até morrer.
Miquirina Jambo, Félix e Maurício são os
nomes de três outras tragédias. Em1993, Miquirina,
que tinha 23 anos, foi com o primo Félix cortar lenha no
mato. Félix, que ainda não tinha sete anos de idade,
pisou numa mina. Desesperada, Miquirina correu para buscar ajuda.
E pisou em outra mina.
Félix morreu perfurado pelos estilhaços. Miquirina
perdeu a perna esquerda, mas sobreviveu para botar no mundo quatro
filhos doentes. Um deles, Maurício, de três anos,
está agora largado no chão do acampamento de deslocados
de Huambo, capital da província de mesmo nome, onde a família
vive desde que chegou em dezembro do ano passado, fugindo da guerra
civil. Maurício não sabe falar. Um dia, ardeu de
febre, quase morreu de diarréia e perdeu também
para sempre, como descreve a mãe, "a força
de andar". Maurício vê o mundo triste do acampamento
com olhar distante, o rosto meio coberto de moscas. De vez em
quando, tirando forças ninguém sabe de onde, ergue
a mãozinha muito magra e espanta as moscas. Mas elas voltam.
Quando nasceu, Maurício não tinha esperanças
de viver mais que 42 anos: é essa a expectativa de vida
em Angola, a quinta mais baixa do mundo. Com o passar do tempo,
diminuem as chances de envelhecer: doente e desnutrido, Maurício
corre o risco de engordar as estatísticas de mortalidade
infantil, uma das mais altas do planeta: nada menos que um quarto
das crianças morrem antes de completar cinco anos de vida.
De sarampo, pólio, meningite, malária, diarréia,
fome.
Maurício tem a pele meio devorada pela sarna. Não
é o único. Por falta de sabão para lavar
o corpo e a única roupa do corpo, segue a sarna a comer
a pele de boa parte dos 22 mil deslocados de guerra desse acampamento
conhecido como Coalfa porque está instalado nos galpões
varados de tiros de fuzil da antiga fábrica homônima.
Por ironia do destino _ como se estivesse escrito em algum livro
santo que o destino da Angola é morrer em guerra _ a Coalfa
fabricava sabão...
Em Kuito, capital da província de Bié, que já
foi uma cidade florida e hoje tem mortos da guerra plantados nos
jardins e quintais das casas, cada rosto que espia por trás
de paredes e muros destruídos pela fuzilaria e pelos obuses
conta uma tragédia, pelo menos uma. Mas Manuela Marinho,
sozinha, carrega oito: o marido Francisco e os sete filhos (Solange,
16 anos; os gêmeos Maximiano e Helder, 14; Letícia,
11; as gêmeas Ana e Joana, 9; e a caçula Rossana,
7), mortos por um obus quando tomavam café da manhã.
As oito tragédias de Manuela estão enterradas numa
única cova, neste país de cruzes em vez de flores.
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Com
oito tragédias na bagagem inexistente, Manuela foi embora
para Luanda. Tantos outros angolanos fizeram o mesmo. E foi assim
que a capital do país, que deveria ter 600 mil habitantes,
abriga de qualquer jeito 4 milhões de pessoas tentando
sobreviver a qualquer custo, muitos no escuro, a maioria sem água,
quase todos sem esgoto.
E é assim que entre tantas tragédias com nome próprio,
há uma que se chama Angola. Um país que é
rico em diamantes, mas antes não fosse: graças à
exploração de jazidas no território ocupado,
a guerrilha da Unita chegou a faturar US$ 400 milhões por
ano, o suficiente para montar uma máquina de matar feita
de tanques, artilharia antiaérea e canhões que disparam
até 40 projéteis ao mesmo tempo a uma distância
de 25 km do alvo.
Um país que é rico em petróleo, mas a maioria
do povo não se beneficia disso. E seguem os pobres comprando
garrafinhas de petróleo iluminante que acendem à
noite para compensar a luz elétrica ausente da maioria
dos musseks (versão angolana das favelas brasileiras)
que se proliferam pela cidade, impulsionados pela guerra e a miséria.
A riqueza do país exportador de petróleo não
impede que um botijão de gás chegue a custar na
candonga (mercado paralelo, que é a única
chance de sobrevivência para boa parte dos angolanos) o
equivalente a U$ 15 em Luanda e nada menos que US$ 50 em Huambo.
Por isso, os deslocados de guerra e os pobres em geral derrubam
as árvores, que em Angola, no lugar de flores, frutos e
beleza, passam a produzir não mais que lenha. Cada vez
é preciso andar mais longe, 30 km até, em busca
de uma árvore para derrubar. Cada vez há menos árvores
em Angola. E menos vida.
A tragédia que se chama Angola amarga duas grandes traições
da História. A primeira em 1975, quando conquistou a Independência
depois de 14 anos de guerra contra o colonizador português
e não teve tempo de comemorar: MPLA (Movimento Popular
para Libertação de Angola), Unita (União
Nacional para Independência Total de Angola) e FNLA (Frente
Nacional de Libertação de Angola), os três
grupos guerrilheiros que brigavam pela liberdade, continuaram
a brigar entre si, com mais força do que nunca. A FNLA
abandonou a luta, deixando o MPLA, no poder, e a Unita, na oposição,
mergulhados na guerra civil que já dura 24 anos.
Em 1992, a História traiu Angola pela segunda vez, na forma
de um acordo depaz entre o MPLA e a Unita, que levou à
realização das primeiras eleições
do país. A euforia cívica acabou quando a Unita
não aceitou a derrota nas urnas e lançou o país
numa guerra ainda mais sangrenta. Apesar de tudo, as crianças
de Angola insistem em sorrir. Ainda que com os dentes de leite
estragados e os cantos dos lábios meio comidos pela sarna.
No acampamento de Viana, perto de Angola, meninos e meninas cantam,
em português: "Se eu pudesse voava/ ao encontro da
paz/ Abandonava essa guerra/ ficava do lado da paz".
No acampamento da Coalfa, em Huambo, o professor Fernando Jojolo,
que fugiu da aldeia de Sambo em 23 de fevereiro quando a Unita
chegou atirando, dá aulas improvisadas para 120 alunos.
Por falta de material escolar, o mestre esquartejou um livro em
inglês, com gravuras, e distribuiu uma página para
cada um. Por uma infeliz coincidência, trata-se de um livro
de receitas culinárias, com pratos de nomes esquisitos
de países mais prósperos que Angola. Famintas, 120
crianças devoram páginas recheadas de brownies
(United States), surprise cakes (England), tuna fish
pies (France), mushroom omelettes (Poland) e até
emincé de porc (Brazil!!!), que jamais comerão
um dia.
Apesar
de tudo, sai o professor Jojolo correndo pelo pátio da
velha fábrica de sabão, dançando, batendo
palmas e cantando em dialeto umbundo, seguido de perto por um
coral de 120 pequenas tragédias dançarinas: "Á
papá okasumwe / olohali vipongoloka"... Que significa:
"Ah papai, não fique triste / esse sofrimento passa".
Só não se sabe quando.
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Uma
das pernas das calças dos homens pende solta no espaço,
sem serventia, enrolada de qualquer jeito ou dobrada com zelo
e espetada por alfinetes. Das barras dos vestidos das mulheres
desce uma única perna; às vezes, as saias mais curtas
das moças deixam entrever uma coxa que termina de repente,
inacabada, estraçalhada que foi por uma mina.
Eles estão em toda parte. Incompletos. São 80 mil
mutilados _ homens, mulheres, velhos e crianças _ arrastando
muletas e o que lhes restou das pernas pelas cidades, aldeias
e campos de refugiados de um dos países mais minados do
mundo.
Angola tem 11 milhões de habitantes. Teria também,
segundo cálculos pessimistas, 11 milhões de minas
semeadas ao longo de quatro décadas de guerra (embora o
governo admita a existência de, no máximo, 8 milhões).
Logo, haveria uma mina à espera de cada angolano. Conceição
Arbana encontrou a sua numa manhã de 1996, quando colhia
mandioca na província de Kuanza-Norte. Tinha 16 anos e
adorava dançar kizomba, que está para os
angolanos como a salsa para os cubanos. Chorou muito quando acordou
no hospital sem a perna esquerda. Internada no centro de reabilitação
que o governo mantém na cidade de Viana, prepara-se para
receber uma prótese e aprende corte e costura. Mas não
vai mais dançar. E desistiu de namorar.
Francisco Kaquarta, que era cabo do exército e jogava futebol,
perdeu as duas pernas, o braço direito e a visão
do olho esquerdo quando a mina que esperava por ele explodiu na
manhã de 17 de fevereiro de 1994, na província de
Benguela. Tinha 24 anos. Por azar, acordou antes que os médicos
lhe amputassem o que restava das duas pernas. "Eu vi os ossos,
os tecidos soltos, as veias penduradas...", lembra.
Francisco, ex-militar, é minoria: 70% dos mutilados são
civis, sobretudo camponeses. Gente que não tem nada a ver
com a guerra, a não ser o infortúnio de viver num
país que não sabe o que é viver em paz. E
que escolheu uma das formas mais cruéis de se fazer a guerra:
essa que arrebenta braços e pernas de seres humanos e _
se não houver um hospital por perto _ os deixa sangrar
até a morte.
Somente este ano, de janeiro a setembro, foram 350 acidentes com
minas em Angola. Há pelo menos um por dia, às vezes
três. O lavrador Antonio Aspirante, 47 anos, da província
de Malanje, pisou numa mina quando fugia de um ataque da Unita
à sua aldeia. Não reclama. "Ainda sobrou uma
perna. Se a Unita me pegasse, eu estava com as duas, mas morto".
Domingos
Ernesto, 47 anos, cinco filhos, viu o sonho da casa própria
despedaçar-se quando apanhava pedras para o alicerce do
lar em construção, perto do aeroporto de Kuito,
e pisou na mina que lhe arrancou a perna esquerda. Joaquim Kassango,
45 anos, seis filhos, perdeu uma das pernas quando foi ao mato
catar lenha; Rosalina Kassova, 18 anos, quando ia à roça
"apanhar de comer".
Nati Esperança, 17 anos, teve mais sorte: escapou inteira,
apenas com uma perna e um braço quebrados, quando o caminhão
no qual ia comprar feijão em Caxingue para revender em
Kuito detonou uma mina enterrada na estrada e voou em chamas.
Havia 28 pessoas no caminhão: 13 morreram na hora.
É uma questão de sorte ou azar. Você pode
envelhecer e morrer em Angola sem jamais pisar numa mina. Mas
pode também pisar, com a ponta do pé ou com o calcanhar:
no primeiro caso, os médicos lhe amputarão apenas
da canela para baixo; no segundo, só restará intacta
a parte superior da perna, do joelho para cima. Mas você
pode também tropeçar no arame invisível que
detonará a temida POMZ-2. Fabricada pela finada União
Soviética, a POMZ-2 fica espetada na superfície
e não enterrada como as outras minas. Espalha estilhaços
a 200 metros de distância, ferindo e matando muito mais
gente ao mesmo tempo.
No Hospital Provincial de Kuito, Eugenia Segunda, 33 anos, recupera-se
de um acidente com a POMZ-2. No dia 10 de agosto deste ano, o
grupo de oito pessoas (sete mulheres e um bebê) ia à
lavra buscar comida. Dona Laurinda, a primeira da fila, acionou
a mina, espalhando os estilhaços. E morreu, juntamente
com as mulheres que estavam mais próximas. Eugenia, que
estava por último, apenas feriu um braço e uma perna.
Mas perdeu nesse acidente cinco tias e o filho Elias, um bebê
de dois meses, que carregava nas costas, atado a um pano colorido,
como fazem as mulheres angolanas. Outra filha de Eugenia, Augusta,
geme de dor na cama ao lado. Augusta só viveu 14 anos.
E já não tem uma das pernas.
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Não há mocinhos nessa guerra de mutilações
sem fim. A Unita planta minas, o governo semeia minas, Angola
colhe mortos e mutilados. Também minaram o território
angolano, a partir de 1961, o governo colonial português
e os três grupos guerrilheiros que lutavam pela Independência
(MPLA, Unita e FNLA). Independência conquistada, continuaram
a minar o país o MPLA, a Unita, a FNLA. E mais os cubanos
que apoiavam o MPLA, os sul-africanos e os marroquinos que apoiavam
a Unita, os zairenses que apoiavam a FNLA. Só as tropas
sul-africanas dos tempos do apartheid, estima o governo,
deixaram 2 milhões de minas como lembrança das várias
tentativas de invadir Angola.
Em 1992, a partir do acordo de paz com a Unita que levaria às
primeiras eleições da história de Angola,
o governo criou o Instituto Nacional de Remoção
de Obstáculos e Engenhos Explosivos (Inaroee) e iniciou
o difícil trabalho de desminagem. Naquele ano, removeu
31.746 minas antipessoais e 2.155 antitanques, fabricadas por
25 países, como Estados Unidos, França, Inglaterra,
Áustria, Espanha, Itália, Portugal, União
Soviética, África do Sul e outros cúmplices
da barbárie.
Mas a Unita perdeu a eleição e rasgou o acordo de
paz. Acabou o trabalho de desminar, recomeçou o de minar.
Em 1996, o Inaroee voltou ao trabalho. Mas, mesmo com o auxílio
de nove ONGs do ramo, só conseguiu remover pouco mais que
14 mil minas em três anos. Se mantido esse ritmo de remoção
de 4.700 artefatos por ano, e existindo, como admite o governo,
8 milhões de minas enterradas pelo país afora, serão
necessários 1.700 anos para que se possa caminhar em paz
em Angola. Desde que os dois lados da guerra parem de plantar
sementes de mutilação e morte.
O problema é que se pode comprar no mercado internacional
de armamentos uma mina simples, mas possante o suficiente para
arrebentar uma perna humana, por apenas US$ 3 (Isso mesmo: uma
coca-cola e um hot-dog). E a remoção de uma única
mina custa nada menos que US$ 2 mil. Ou seja: haveria que se investir
US$ 16 bilhões para livrar Angola do flagelo das minas.
Mas dos US$ 1,5 milhões de orçamento que pretendia
receber este ano, inclusive para a compra de duas máquinas
de desminagem mecanizada, o Inaroee recebeu...zero. O órgão,
que deveria ter pelo menos 1.300 sapadores (especialistas em explosivos),
tem apenas 400. Um deles se chama Manoel José Paciência
e trabalha na desminagem da província de Bié.
Paciência contabiliza três mortes na família
por acidente com mina: perdeu o pai em 1987, um irmão de
22 anos, em 1997, e uma irmã de 14, em 1998. Apesar do
histórico familiar desfavorável, arrisca a vida
todos os dias em troca de um salário de 160 milhões
de kwanzas (pouco mais que US$ 30 por mês). Detalhe: Paciência,
como seus colegas, não recebe há quatro meses. Mesmo
assim, continua desmontando minas e fincando estacas com o aviso
de "Perigo, minas" _ que a população pobre
arranca para usar como lenha...
O diretor-geral do Inaroee chama-se general Helder Cruz. Veterano
de guerra, ex-chefe de engenharia do exército angolano,
o homem que hoje manda tirar minas é o mesmo que no passado
mandou colocar minas para deter a Unita. "Nós estamos
numa guerra, temos que usar todos os meios para defender nossos
objetivos estratégicos", justifica.
É o general quem explica a lógica que se esconde
por trás do irracional. "A mina não foi feita
para matar. Na batalha, um soldado ferido por uma mina precisa
de dois outros soldados para removê-lo, sangue para transfusão,
enfermeiros, médicos para amputar-lhe a perna etc etc.
Já um soldado morto custa bem menos: um saco de plástico
preto e uma etiqueta."
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1 dólar
= 5.000.000 de kwanzas
A educação está abandonada e um professor
angolano chega a receber um salário de...
30. 000. 000 de kwanzas
Na candonga, mercado informal que está em toda parte,
um ovo custa...
1. 000. 000 de kwanzas
Logo, o salário de um professor angolano é suficiente
para comprar...
30 ovos por mês.
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Kuito,
agosto de 1993. O dia insiste em nascer na cidade que agoniza
ferida pelas bombas e a fuzilaria. Mas ainda é noite no
buraco cavado embaixo da casa, no fundo do qual 16 pessoas _ a
maioria mulheres e crianças _ se espremem tentando sobreviver
aos obuses que há cinco meses cruzam 30 km de céu
num assovio de morte antes de desabar sobre telhados e gente com
um estrondo de fim de mundo. Exausto e faminto, o homem que passou
o dia, a noite e a madrugada na superfície, disparando
tiros com o fuzil soviético AK-47, desce de volta para
o buraco. O homem não diz uma palavra à mulher:
apenas tira do colo dela o filho pequeno, morde e espreme o peito
inchado de leite e dali arranca a primeira refeição
em muitos dias de guerra.
A poucos metros de distância, na quase escuridão
do improvisado abrigo subterrâneo, Maria Manuela da Costa
Marinho, 31 anos, abre os olhos e vê o homem que mata a
fome no peito da mulher que lhe pariu os filhos. Manuela não
se espanta com a cena. Manuela não se espanta com coisa
alguma _ desde aquela manhã, não faz muito tempo,
em que viu desaparecer em um segundo a família que passou
quase duas décadas a construir.
Eram 7h30 do dia 17 de abril de 1993. Três meses antes,
numa madrugada chuvosa de janeiro, a cidade acordou mais cedo
com os obuses disparados pela Unita. Foram 12 dias de luta, até
que o pequeno destacamento do MPLA, ajudado pela população
civil, rechaçasse o inimigo. Na madrugada de 16 de março,
a Unita voltou mais forte. Os primeiros obuses caíram na
periferia de Kuito, na direção do aeroporto. Com
o passar dos dias e semanas, as bombas foram apertando o cerco,
mas Manuela, funcionária do MPLA, e o marido, o caminhoneiro
Francisco, continuavam a acreditar que não era hora ainda
de se mudar com a família para um abrigo debaixo da terra.
E é assim que na manhã de 17 de abril de 1993, Manuela,
o marido e os sete filhos estão sentados à mesa
do mata-bicho (o desjejum angolano). Manuela, que é
viciada em café, levanta-se e vai até a cozinha
apanhar mais um bule. No meio do caminho de volta, ouve o estrondo,
vê o fogo, sente as telhas e os tijolos desabando. O obus
já lhe matou o marido e os sete filhos, mas ela só
vai saber daqui a três meses, no dia em que sair do hospital
onde lhe abrirão a barriga para arrancar os estilhaços
da bomba e lhe arrancarão também o útero
(Manuela, que perdeu sete filhos, não poderá fazer
mais nenhum).
Manuela
deixa o hospital e volta para casa. Mas já não há
casa. Alguém lhe diz que os que moravam por ali estão
escondidos no subsolo de um hotel. Lá, ela encontra uma
amiga, Enda, que pega sua mão e a guia em silêncio
até o quintal do hotel, onde há uma cruz de madeira
com oito nomes escritos.
Manuela lê, um por um, os oito nomes, do marido e dos sete
filhos. Lê e relê até ter certeza que está
sozinha num mundo à beira do fim do mundo. Refugia-se,
então, no buraco sob a casa de uma família conhecida,
no fundo do qual, numa manhã escura, acordará sem
se espantar com mais nada. Nem com o homem que suga do peito da
mulher a força necessária para viver e seguir matando.
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Kuito,
outubro de 1999. Os nove meses de cerco de 1993 foram-se há
muito. Mas o som e a fúria da guerra ainda hoje ecoam nas
fachadas varadas de tiros dos prédios, nas paredes e telhados
arrancados das casas, nas cruzes espetadas nos amontoados de terra
arrasada que um dia foram jardins floridos.
Na praça central cujo nome homenageia a Independência,
o prédio outrora cor-de-rosa da Assembléia tenta
se manter de pé, as ruínas protegidas por um portão
de ferro enferrujado onde se vê a caveira de ossos cruzados
e o aviso: "Perigo, minas". À esquerda, o que
sobrou do majestoso edifício-sede do Banco Nacional do
Kuito, com restos de azulejos portugueses azuis na fachada em
pedaços, abriga quatro ou cinco famílias famintas
de deslocados de guerra. Na Escola Técnica Provincial de
Saúde, futuros enfermeiros estudam sentados em tijolos
e blocos de cimento num sobrado verde desbotado que é quase
um buraco só de tanto obus e ninguém entende como
não caiu até hoje.
Deslocados de guerra _desta atual fase da guerra, que começou
em dezembro do ano passado_ arrastam-se pelas ruas imundas. Não
há luz, nem água. Um engraxate sem perna lustra
o sapato encaixado na extremidade da perna postiça de um
freguês que, com certeza, também pisou numa mina.
Na Avenida Principal, o edifício Gabiconta, o mais alto
da cidade, com seis andares, mantém-se de pé como
símbolo-vivo de resistência. É o avesso do
cartão-postal: eterniza o horror em vez do belo. Não
fossem as roupas pobres penduradas nos varais e um ou outro morador
que lá do alto lança o olhar perdido para a rua,
ninguém imaginaria que há vida entre os escombros
desse prédio que seis anos atrás foi o alvo preferencial
dos obuses da Unita.
Acima de tudo, os nove meses do cerco de 1993 estão preservados
nas imagens impressas para sempre na retina dos sobreviventes.
"Aqui, ficávamos nós, a atirar. Do lado de
lá da rua, ficava a Unita, a atirar", conta o professor
Angélico Kamonakongo, debruçado no que um dia foi
a varanda do apartamento onde ainda mora, no terceiro andar do
edifício Gabiconta.
Na época da guerra, a Avenida Principal dividia a cidade
em duas. Do lado esquerdo, a Unita. Do lado direito, o MPLA e
a população civil, que defendia Kuito com os fuzis
distribuídos pelo governo. Os obuses, disparados a 30 km
de distância, desequilibravam a guerra a favor da Unita.
"Teve um que caiu no segundo andar e matou 32 pessoas de
uma vez", lembra Angélico.
Mas a fome e a sede flagelavam tanto quanto as bombas. As estradas
estavam interditadas, os aeroportos fechados. De vez em quando,
um avião decolava de Luanda, fugia da artilharia antiaérea
da Unita e lançava mantimentos de pára-quedas _
que muitas vezes caíam na metade da cidade controlada pelo
inimigo. Era preciso percorrer uma distância mortal no meio
da rua, equilibrando um balde na cabeça, fugindo dos franco-atiradores,
para chegar até a água. Um dia, Ester, irmã
do professor Angélico, conseguiu furar o cerco na ida.
Ela chegou a encher o balde, mas a água derramou até
a última gota no instante em que a bala de fuzil atravessou
sua cabeça.
A família organizou um grupo para sair à rua atirando
e resgatar o corpo. Ester
foi enterrada no quintal de casa, num caixão feito com
a madeira da mesa na qual durante os tempos da provisória
paz angolana fazia as refeições com os cinco filhos.
Não houve tempo para velório. "Não havia
tempo para chorar", lembra o irmão.
Ester foi uma honrosa exceção. Muitos corpos passaram
os meses estendidos nas ruas, até que deles nenhuma carne
mais restasse. "Ficavam lá, a apodrecer. De vez em
quando, passava um cachorro magro com uma mão, um crânio,
uma costela de gente na boca. É que eles, os animais, também
sentem fome", absolve o funcionário público
Antonio Balbino.
Manuela, que hoje trabalha como copeira da construtora brasileira
Odebrecht, em Luanda, chegou a passar 12 dias sem comer, alimentando-se
apenas de água e sal. Quando a fome tornava-se insuportável,
era hora de organizar grupos de 80 homens e mulheres, os mais
corajosos, que caminhavam sempre à noite em busca de lavouras
abandonadas, muitas vezes a 100 km de distância.
"A gente ia sem saber se voltava. Muitos morriam de fome
no caminho, outros pisavam em minas e ficavam lá, com as
pernas arrebentadas, a sangrar até morrer. E havia sempre
os ataques da Unita", lembra Manuela, que sobreviveu à
fome, à guerra, à dor e hoje tenta reconstruir a
vida. "Já tenho um colchão, uma mesa e um fogão",
contabiliza a mulher que um dia teve marido e sete filhos _ que
a guerra converteu em oito tragédias.
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1482 _
O navegante português Diogo Cão, que buscava contornar
o continente africano para chegar às Índias, desembarca
em Angola e proclama ter atingido oponto extremo da África.
Recebido como herói em Portugal, cai em desgraça
quando o engano é descoberto.
1576 _ Fundação de Luanda, base para o tráfico
de escravos que abastece principalmente o Brasil (Cerca de 3 milhões
de angolanos foram enviados para o Brasil entre os séculos
XVI e XIX).
1641 _ A colonização portuguesa é bruscamente
interrompida quando os holandeses invadem Angola e assumem o controle
do tráfico de escravos.
1648 _ Os portugueses expulsam os holandeses e retomam a colonização
de Angola.
1961 _
Começa a luta armada pela Independência, a partir
do ataque frustrado do Movimento Popular para Libertação
de Angola (MPLA), de orientação marxista, a três
prisões de Luanda, na tentativa de libertar líderes
nacionalistas.
1962 _ Diferenças culturais e políticas dividem
o movimento pela Independência. Rebeldes do Norte formam
a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA),
anticomunista.
1966 _ Nasce a União Nacional para Independência
Total de Angola (Unita), formada por rebeldes nacionalistas do
Sul. A princípio maoísta (o líder, Jonas
Savimbi, foi treinado na China), a Unita torna-se anticomunista
e recebe apoio do regime sul-africano do apartheid.
1974 _ Em Portugal, a Revolução dos Cravos derruba
a ditadura que governava o país desde os anos 20.
1975 _ Portugal decide conceder a Independência a
Angola. Pelo acordo, o poder seria dividido entre os três
grupos guerrilheiros, mas a guerra civil explode nesse mesmo ano.
1976 _ O MPLA, que tinha o apoio de Cuba e União Soviética,
derrota seus inimigos. O poeta e médico Agostinho Neto
é proclamado presidente da socialista República
Popular de Angola. O Brasil é o primeiro país a
reconhecer o novo estado independente.
1979 _ Com a morte de Agostinho Neto, José Eduardo
dos Santos é proclamado presidente. A FNLA se dissolve,
mas a Unita continua a guerrilha, agora com apoio também
dos Estados Unidos, além da África do Sul.
1990 _ Numa tentativa de aproximação com
os Estados Unidos e diante das mudanças internacionais
no mundo socialista, o MPLA decide abandonar o marxismo.
1991 _ O MPLA e a Unita firmam acordo de paz em Bicesse (Portugal)
e convocam as primeiras eleições da história
do país.
1992 _ O MPLA vence as eleições. José
Eduardo dos Santos é confirmado presidente pelas urnas,
mas Jonas Savimbi, líder e candidato da Unita, não
aceita a derrota e recomeça a guerra civil, que devasta
o país. A Unita tenta tomar Luanda, mas é rechaçada
depois de três dias de combates sangrentos.
1993 _ A Unita toma cidades importantes como as capitais Huambo
e Kuito, na fase mais violenta da guerra.
1994 _ MPLA e Unita assinam novo acordo de paz, em Lusaka
(Zambia), que determina a desmobilização das duas
tropas, a formação de um governo de união
nacional e a integração da Unita a um exército
nacional unificado. O cumprimento do acordo passa a ser monitorado
por 7 mil soldados da ONU.
1997 _ O governo de união nacional toma posse, com
a participação de vários ministros e vice-ministros
da Unita, mas Savimbi, que deveria assumir a Vice-Presidência
de Angola, permanece com seus homens no interior e recusa-se a
entregar as jazidas de diamante controladas por ele.
1998 _ Massacres de civis em aldeias no Norte, atribuídos
aos comandados de Jonas Savimbi, reiniciam conflitos entre o governo
e a Unita. Em dezembro, começa a atual fase da guerra civil.
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Como
as mulheres envelhecidas em cujas formas já imperfeitas
se reconhece ainda os vestígios da beleza de outrora, Luanda
deve ter sido bonita. Há muito não o é. E
não só pelo passar do tempo. O sofrimento fez de
Luanda uma cidade feia.
Há lixo nas ruas esburacadas e boiando nos esgotos a céu
aberto, carcaças de automóveis envelhecendo ao sol,
muros onde se lê apelos inúteis do tipo "Proibido
mijar" e "Proibido deitar lixo" ou "Nós queremos a paz
em Angola" e "Força Angola, tudo passa". Mas não
passa. Nas esquinas, mutilados vestindo farda do exército
pedem esmola; crianças pedem comida.
E gente. Gente que não acaba mais, milhões de pessoas
em constante movimento, batalhando a água de cada dia,
vendendo pão, telefone sem fio, papel higiênico,
peixinho de aquário desbotado, tábua de passar roupa,
jogo de faca, perfume barato, calça jeans, talco, bloco
de cimento, tudo que possa virar dinheiro e, portanto, comida.
Não há tempo de pensar em futuro _ a menos que futuro
seja o outro nome do prazo fatal de 24 horas que todo angolano
tem para encontrar comida.
A não ser pelos panos estampados que as mulheres enrolam
no corpo, Luanda é uma cidade descolorida. A palavra quer
dizer "terra vermelha", mas os musseks, as favelas que
dominam a paisagem da capital, são feitos de barracos cinzentos.
As casas de Luanda há anos desconhecem tinta. Nos prédios
incolores, as vidraças há muito partidas são
trocadas por pedaços de papelão ou tabiques de madeira,
o que os torna ainda mais feios.
Por toda parte projetam-se para o alto esqueletos de edifícios
que jamais serão terminados, como o famoso prédio
da Lagoa, assim chamado porque um dia, em 1975, os engenheiros
descobriram debaixo dos alicerces um curso d'água que há
de derrubá-lo um dia desses. Mesmo assim, em 1993, quando
a guerra da Unita explodiu nas províncias, 600 deslocados
invadiram os 16 andares do prédio da Lagoa. Não
há luz, a menos que se faça uma barrafunda
(o equivalente à nossa gambiarra) e se roube energia de
algum lugar, com fios desencapados perigosamente dependurados
aqui e ali. Água também não tem: é
preciso buscar na única torneira, no térreo, e subir
até 16 andares com o balde na cabeça. Esgoto, muito
menos: urina e fezes são transportadas até o térreo
ou atiradas no fosso vazio do elevador. O projeto original previa
varanda, que não existe: há apenas uma laje estreita,
sem nenhuma proteção lateral, sobre a qual mulheres
acrobatas penduram roupas e crianças equilibristas correm
para lá e para cá, com o vazio e a queda para a
morte a poucos centímetros dos pés descalços.
Moradora
do prédio da Lagoa, Inês Bernardo Antonio, vinda
da província de Kuanza-Norte, 41 anos, "cinco filhos em
vida e quatro mortos por essas doenças que dão dentro
do corpo e matam crianças", carrega água 13 andares
para cima, até que a coluna não agüente mais.
Então, é hora de pagar aos carregadores de água,
fugitivos da guerra como ela, que cobram 1 milhão de kwanzas
por cada recipiente carregado. Parece muito, mas não é:
apenas US$ 0,20. Não parece muito, mas é: o exato
preço de um ovo _ o que em Angola pode significar a distância
pequena e infinita entre dois verbos: comer e não comer.
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É como se o tempo não tivesse passado. Ou insistisse
em girar em círculos para se repetir ao infinito, sempre
como tragédia. O tempo que gira em torno de si mesmo tem
agora, curiosamente, a forma linear de uma longa fila de crianças,
mulheres e velhos sob o sol da cidade de Kuito, capital da província
de Bié, no planalto central angolano. As mulheres, os velhos
e as crianças esperam pelos sacos de milho que a caridade
internacional lhes reserva uma vez por mês. Kuito tem 93
mil deslocados, 25 mil dos quais chegados somente entre o final
de setembro e o início de outubro. Vieram de longe, fugindo
da guerra no campo, e estão famintos. Mesmo assim, esperam
em silêncio pelos grãos que haverão de se
transformar no funji, uma comida barata, espécie
de papa feita de farinha de milho e água, que comerão
esses refugiados de guerra da mesma forma que comiam seus antepassados
quando aqui chegou o navegante português Diogo Cão,
em 1482. Continuariam os angolanos a comer o funji durante o tempo
em que deixaram de ser gente para se tornar mercadoria jogada
nos porões dos navios negreiros com destino ao Brasil.
Acabou-se a escravidão e seguiram os angolanos a comer
funji oprimidos pelo colonialismo de Portugal até o ano
de 1975, o da Independência, quando, por um breve lapso
de tempo, comeram funji sentindo-se finalmente livres.
É
ainda funji que come o povo pobre de Angola ao longo desse quarto
de século de guerra civil. E hoje, nessa fila na cidade
de Kuito, milhares de angolanos esperam o milho que haverá
de se transformar no funji. Rosária Mário, 40 anos
e oito filhos, abandonou a lavoura em dezembro, no dia em que
a Unita chegou com tanques e armas pesadas. Rosária tem
fome e verga sob o peso do saco de milho que em tese matará
a fome da família pelos próximos 30 dias. Donana
Maria, oito filhos, dois netos e velhice indefinida, dobra os
joelhos e arrasta pelo chão as mãos em concha, já
esfoladas, catando os grãos que caíram de pequenos
e abençoados furos dos sacos que outros velhos carregam
nas costas e mulheres arrastam pela rua afora.
João Herculano, 19 anos,
que sempre morou em Kuito e não é, portanto, um
deslocado de guerra _embora tenha a mesma fome que eles_, sustenta
a mãe e seis irmãos transportando os sacos de milho
num carrinho de mão. João não quer dinheiro:
cobra 3 kg de milho por cada saco levado do posto de distribuição
até o acampamento onde vivem os fugitivos da guerra. Assim,
um dia em cada mês, João leva para casa uns 20 kg
de milho. "Para fazer funji", informa.
Mas não basta aos refugiados fugirem às pressas
da guerra abandonando o pouco que se tem. Não bastam a
fome, a humilhação da caridade alheia, a espera
ao sol pelo funji de cada dia. E aí estão os policiais
de farda azul, com pedaços de borracha nas mãos,
espancando velhos, mulheres e crianças para "organizar
a fila", como feitores negros a castigar escravos negros,
como se tudo isso não fosse hoje, mas cinco séculos
atrás, no distante tempo da escravidão.
Em Angola, o tempo que se move em círculo tem forma linear:
é uma fila interminável feita de gente que talvez
nunca tenha sido, de fato, livre.
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"Qual o nome da planta que dá o milho?", pergunta
o professor. O aluno não pensa duas vezes antes de responder:
"PAM".
O
diálogo que nunca existiu é a crítica bem-humorada
dos próprios angolanos à forma como o país
depende desde sempre da ajuda de organizações humanitárias,
como o Programa Alimentar Mundial (PAM), braço das Nações
Unidas de combate à fome no planeta.
Somente em setembro, o PAM distribuiu 13 mil toneladas de alimento
para 900 mil deslocados, pessoas que abandonam suas lavras e tudo
o que têm por causa da guerra e fogem com a roupa do corpo
para as capitais das províncias, onde encontrarão
uma certa segurança, uma tenda de lona e uma planta chamada
PAM, de onde brota o milho, o feijão, o óleo e o
sal que as impede de morrer de fome.
"As pessoas têm que comer todos os dias", lembra
o representante do PAM em Angola, o italiano Francesco Strippoli.
A frase poderia parecer óbvia. Mas não é.
Para que as pessoas comam todos os dias, o PAM e as outras organizações
humanitárias se lançam numa verdadeira operação
de guerra. São caminhões viajando dias a fio por
estradas muitas vezes minadas, fugindo dos ataques da guerrilha.
Aviões cargueiros cruzando um espaço aéreo
minado: é preciso decolar e aterrissar quase na vertical,
numa espiral que revolve estômagos, até atingir altitude
a salvo da artilharia antiaérea da Unita, para só
então seguir em frente. E é preciso seguir em frente.
"A situação pode piorar, e muito. Estamos no
início do tempo de plantio, e não se pode plantar
por causa da guerra. Quando o povo consegue colher, não
há estradas seguras para escoar a produção
agrícola. E não sabemos até quando o PAM
terá segurança para continuar a distribuição
de alimentos", teme Strippoli.
Aos 51 anos de idade, 24 dos quais dedicados a uma guerra desigual
contra a fome no mundo, o representante do PAM parece angustiado.
Mas não desanima: "O povo angolano é um dos
mais sofridos do mundo. Temos a obrigação de construir
o dia de amanhã, deixar sementes no terreno".
Plantar sementes onde desde há muito só se semeia
minas é uma missão difícil, mas necessária
e possível, acredita Strippoli. A receita? "Em primeiro
lugar, não sermos cínicos diante das milhões
de tragédias de Angola."
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"Também
se ganha dinheiro na guerra." Inclusive honestamente _ mas
nemsempre. O gás, subsidiado pelo governo, desaparece dos
postos credenciados de venda, onde um botijão deveria custar
15 milhões de kwanzas (cerca de US$ 3), para materializar-se
no mercado paralelo custando cinco vezes mais. Ou até 17
vezes mais, em Huambo, por exemplo. Em Kuito, a gasolina que,
sendo de uso prioritário das Forças Armadas nesses
tempos de guerra, anda ausente das bombas onde um litro custaria
220 mil kwanzas (cerca de US$ 0,04), aparece milagrosamente na
praça, custando 10 milhões (US$ 2) para quem quiser
ou puder.
Manuela, a mulher que carrega sozinha oito tragédias nas
costas, é a autora da frase que abre o parágrafo
anterior. Manuela descobriu por conta própria que se ganha
dinheiro na guerra.
Recordemos que na guerra de 1993 os moradores da Kuito sitiada
organizavam patrulhas para buscar comida, em caminhadas noturnas
de até 100 km de distância, andando por território
minado, sob o risco permanente de emboscadas da Unita. Mas nem
todos os famintos participavam dessas missões meio suicidas.
"Os que tinham medo e dinheiro, os comerciantes por exemplo,
ficavam em segurança. E pagavam pela comida que a gente
havia arriscado a vida para conseguir", lembra Manuela.
Uma caneca de milho era vendida aos ricos e medrosos por 200 mil
kwanzas (US$0,04). Um copo d'água, que ao pobre custava,
às vezes, uma bala na cabeça, saía quase
de graça para os ricos: 50 mil kwanzas (US$ 0,01). Ninguém
ganhou muito dinheiro. "Eu tinha milho, mas não tinha
sal. Então, vendia um pouco de milho para comprar um pouco
de sal", lembra Manuela.
Mas na guerra também se ganha muito dinheiro. Como demonstram
os Mercedez-Benz, os Volvo, os Audi (US$ 55 mil o modelo A-6)
que arriscam as suspensões eletrônicas de última
geração nos velhos buracos do asfalto de Luanda.
Protegidos pelo ar condicionado, sequer abrem os vidros elétricos.
Nem chegam a ouvir os gritos dos vendedores pobres que oferecem
pilhas de rádio, papel higiênico cor-de-rosa, lâmpadas
fluorescentes. Talvez nem vejam os mutilados que estendem a mão.
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Em
pleno centro de Luanda, o Havana Café é um enclave
de riqueza no país destroçado pela guerra e a miséria
sem fim. Nessa noite de sexta-feira, enquanto pais ricos desembolsam
US$ 120 para aplaudir o brasileiro Emílio Santiago, filhos
ricos dançam no Havana Café, embalados pelos sucessos
da MTV. Penteados bem feitos, roupas de grife, perfumes da moda.
Alegres,
bonitos, perfumados, pagam 36 milhões de kwanzas (cerca
de US$ 7) por uma caipirinha de maracujá. Vale, portanto,
mais que o salário de um professor angolano (30 milhões)
ou mais do que ganham juntos um cabo (20 milhões) e um
soldado (13 milhões) para matar e morrer no front,
a caipirinha que se bebe nessa noite de sexta-feira em Luanda,
num bar cuja parede em pátina vermelha exibe o retrato
de Che Guevara, o revolucionário que dedicou a vida a banir
as misérias do mundo.
São quase duas da madrugada. Do lado de dentro e na calçada
do bar lotado,sob o olhar atento dos seguranças, os filhos
da guerra de Angola bebem, dançam, namoram e riem (Quem
disse que dinheiro não traz felicidade?). Mas eis que de
repente a outra Angola invade o campo de visão dos jovens
que empunham garrafinhas de cerveja sul-africana de 15 milhões
de kwanzas: em frente ao Havana Café passa agora um caminhão
de transporte coletivo, sem capota, desses de carregar angolano
pobre, apinhado de gente.
O caminhão traz pendurados nas barras de ferro, suados
e amarrotados, os jovens da outra Angola, que também vestem
suas roupas de sexta-feira. Roupas pobres, mas as melhores que
a falta de dinheiro pode comprar.
As duas Angolas cruzam os olhares por uma fração
de segundo. Não se reconhecem. Os jovens do Havana Café
suspiram de alívio: sabem que jamais precisarão
embarcar num caminhão como aquele, mesmo que a guerra dure
para sempre. Os jovens do caminhão também suspiram,
mas por saber que nunca entrarão num bar como aquele _
ainda que a guerra um dia acabe.