<< salvar reportagem
sobe
   
 
fotos de Cláudio Versiani >>

 

 

       38 anos de guerra não produziram apenas uma tragédia em Angola. Produziram milhões de tragédias: 2 milhões de mortos, 1,7 milhão de refugiados, milhares de órfãos, 200 pessoas mortas de fome por dia, 80 mil crianças, velhos, homens e mulheres mutilados pelas milhões de minas semeadas pelo país afora. Em Angola, são milhões de tragédias, cada qual com um nome e uma história de final infeliz.

      A tragédia que se chama Margarida João fecha os olhos e vê de novo o obus (artefato explosivo em forma de bala gigante, disparado de longa distância) caindo sobre o prédio onde morava em 1993, na cidade de Huambo, matando 35 vizinhos e amigos. Abre os olhos e vê a mãe, a filha Joelma, de 16 anos, um tio e dois sobrinhos assassinados a sangue frio pela guerrilha da Unita. Dorme e sonha com a fuga em direção a Luanda, 20 dias a pé, bebendo água da chuva, meio morta de fome. Acorda espremida com outras 15 pessoas numa tenda de lona verde puída no campo de deslocados de guerra Comandante Gika, na capital do país, onde mora há seis anos e onde talvez viva até morrer.

      Miquirina Jambo, Félix e Maurício são os nomes de três outras tragédias. Em1993, Miquirina, que tinha 23 anos, foi com o primo Félix cortar lenha no mato. Félix, que ainda não tinha sete anos de idade, pisou numa mina. Desesperada, Miquirina correu para buscar ajuda. E pisou em outra mina.

      Félix morreu perfurado pelos estilhaços. Miquirina perdeu a perna esquerda, mas sobreviveu para botar no mundo quatro filhos doentes. Um deles, Maurício, de três anos, está agora largado no chão do acampamento de deslocados de Huambo, capital da província de mesmo nome, onde a família vive desde que chegou em dezembro do ano passado, fugindo da guerra civil. Maurício não sabe falar. Um dia, ardeu de febre, quase morreu de diarréia e perdeu também para sempre, como descreve a mãe, "a força de andar". Maurício vê o mundo triste do acampamento com olhar distante, o rosto meio coberto de moscas. De vez em quando, tirando forças ninguém sabe de onde, ergue a mãozinha muito magra e espanta as moscas. Mas elas voltam.

      Quando nasceu, Maurício não tinha esperanças de viver mais que 42 anos: é essa a expectativa de vida em Angola, a quinta mais baixa do mundo. Com o passar do tempo, diminuem as chances de envelhecer: doente e desnutrido, Maurício corre o risco de engordar as estatísticas de mortalidade infantil, uma das mais altas do planeta: nada menos que um quarto das crianças morrem antes de completar cinco anos de vida. De sarampo, pólio, meningite, malária, diarréia, fome.

      Maurício tem a pele meio devorada pela sarna. Não é o único. Por falta de sabão para lavar o corpo e a única roupa do corpo, segue a sarna a comer a pele de boa parte dos 22 mil deslocados de guerra desse acampamento conhecido como Coalfa porque está instalado nos galpões varados de tiros de fuzil da antiga fábrica homônima. Por ironia do destino _ como se estivesse escrito em algum livro santo que o destino da Angola é morrer em guerra _ a Coalfa fabricava sabão...

      Em Kuito, capital da província de Bié, que já foi uma cidade florida e hoje tem mortos da guerra plantados nos jardins e quintais das casas, cada rosto que espia por trás de paredes e muros destruídos pela fuzilaria e pelos obuses conta uma tragédia, pelo menos uma. Mas Manuela Marinho, sozinha, carrega oito: o marido Francisco e os sete filhos (Solange, 16 anos; os gêmeos Maximiano e Helder, 14; Letícia, 11; as gêmeas Ana e Joana, 9; e a caçula Rossana, 7), mortos por um obus quando tomavam café da manhã. As oito tragédias de Manuela estão enterradas numa única cova, neste país de cruzes em vez de flores.



     Com oito tragédias na bagagem inexistente, Manuela foi embora para Luanda. Tantos outros angolanos fizeram o mesmo. E foi assim que a capital do país, que deveria ter 600 mil habitantes, abriga de qualquer jeito 4 milhões de pessoas tentando sobreviver a qualquer custo, muitos no escuro, a maioria sem água, quase todos sem esgoto.

      E é assim que entre tantas tragédias com nome próprio, há uma que se chama Angola. Um país que é rico em diamantes, mas antes não fosse: graças à exploração de jazidas no território ocupado, a guerrilha da Unita chegou a faturar US$ 400 milhões por ano, o suficiente para montar uma máquina de matar feita de tanques, artilharia antiaérea e canhões que disparam até 40 projéteis ao mesmo tempo a uma distância de 25 km do alvo.

      Um país que é rico em petróleo, mas a maioria do povo não se beneficia disso. E seguem os pobres comprando garrafinhas de petróleo iluminante que acendem à noite para compensar a luz elétrica ausente da maioria dos musseks (versão angolana das favelas brasileiras) que se proliferam pela cidade, impulsionados pela guerra e a miséria.

      A riqueza do país exportador de petróleo não impede que um botijão de gás chegue a custar na candonga (mercado paralelo, que é a única chance de sobrevivência para boa parte dos angolanos) o equivalente a U$ 15 em Luanda e nada menos que US$ 50 em Huambo. Por isso, os deslocados de guerra e os pobres em geral derrubam as árvores, que em Angola, no lugar de flores, frutos e beleza, passam a produzir não mais que lenha. Cada vez é preciso andar mais longe, 30 km até, em busca de uma árvore para derrubar. Cada vez há menos árvores em Angola. E menos vida.

      A tragédia que se chama Angola amarga duas grandes traições da História. A primeira em 1975, quando conquistou a Independência depois de 14 anos de guerra contra o colonizador português e não teve tempo de comemorar: MPLA (Movimento Popular para Libertação de Angola), Unita (União Nacional para Independência Total de Angola) e FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola), os três grupos guerrilheiros que brigavam pela liberdade, continuaram a brigar entre si, com mais força do que nunca. A FNLA abandonou a luta, deixando o MPLA, no poder, e a Unita, na oposição, mergulhados na guerra civil que já dura 24 anos.

      Em 1992, a História traiu Angola pela segunda vez, na forma de um acordo depaz entre o MPLA e a Unita, que levou à realização das primeiras eleições do país. A euforia cívica acabou quando a Unita não aceitou a derrota nas urnas e lançou o país numa guerra ainda mais sangrenta. Apesar de tudo, as crianças de Angola insistem em sorrir. Ainda que com os dentes de leite estragados e os cantos dos lábios meio comidos pela sarna. No acampamento de Viana, perto de Angola, meninos e meninas cantam, em português: "Se eu pudesse voava/ ao encontro da paz/ Abandonava essa guerra/ ficava do lado da paz".

      No acampamento da Coalfa, em Huambo, o professor Fernando Jojolo, que fugiu da aldeia de Sambo em 23 de fevereiro quando a Unita chegou atirando, dá aulas improvisadas para 120 alunos. Por falta de material escolar, o mestre esquartejou um livro em inglês, com gravuras, e distribuiu uma página para cada um. Por uma infeliz coincidência, trata-se de um livro de receitas culinárias, com pratos de nomes esquisitos de países mais prósperos que Angola. Famintas, 120 crianças devoram páginas recheadas de brownies (United States), surprise cakes (England), tuna fish pies (France), mushroom omelettes (Poland) e até emincé de porc (Brazil!!!), que jamais comerão um dia.

     Apesar de tudo, sai o professor Jojolo correndo pelo pátio da velha fábrica de sabão, dançando, batendo palmas e cantando em dialeto umbundo, seguido de perto por um coral de 120 pequenas tragédias dançarinas: "Á papá okasumwe / olohali vipongoloka"... Que significa: "Ah papai, não fique triste / esse sofrimento passa".
      Só não se sabe quando.



     Uma das pernas das calças dos homens pende solta no espaço, sem serventia, enrolada de qualquer jeito ou dobrada com zelo e espetada por alfinetes. Das barras dos vestidos das mulheres desce uma única perna; às vezes, as saias mais curtas das moças deixam entrever uma coxa que termina de repente, inacabada, estraçalhada que foi por uma mina.

      Eles estão em toda parte. Incompletos. São 80 mil mutilados _ homens, mulheres, velhos e crianças _ arrastando muletas e o que lhes restou das pernas pelas cidades, aldeias e campos de refugiados de um dos países mais minados do mundo.

     Angola tem 11 milhões de habitantes. Teria também, segundo cálculos pessimistas, 11 milhões de minas semeadas ao longo de quatro décadas de guerra (embora o governo admita a existência de, no máximo, 8 milhões). Logo, haveria uma mina à espera de cada angolano. Conceição Arbana encontrou a sua numa manhã de 1996, quando colhia mandioca na província de Kuanza-Norte. Tinha 16 anos e adorava dançar kizomba, que está para os angolanos como a salsa para os cubanos. Chorou muito quando acordou no hospital sem a perna esquerda. Internada no centro de reabilitação que o governo mantém na cidade de Viana, prepara-se para receber uma prótese e aprende corte e costura. Mas não vai mais dançar. E desistiu de namorar.

      Francisco Kaquarta, que era cabo do exército e jogava futebol, perdeu as duas pernas, o braço direito e a visão do olho esquerdo quando a mina que esperava por ele explodiu na manhã de 17 de fevereiro de 1994, na província de Benguela. Tinha 24 anos. Por azar, acordou antes que os médicos lhe amputassem o que restava das duas pernas. "Eu vi os ossos, os tecidos soltos, as veias penduradas...", lembra.

      Francisco, ex-militar, é minoria: 70% dos mutilados são civis, sobretudo camponeses. Gente que não tem nada a ver com a guerra, a não ser o infortúnio de viver num país que não sabe o que é viver em paz. E que escolheu uma das formas mais cruéis de se fazer a guerra: essa que arrebenta braços e pernas de seres humanos e _ se não houver um hospital por perto _ os deixa sangrar até a morte.

      Somente este ano, de janeiro a setembro, foram 350 acidentes com minas em Angola. Há pelo menos um por dia, às vezes três. O lavrador Antonio Aspirante, 47 anos, da província de Malanje, pisou numa mina quando fugia de um ataque da Unita à sua aldeia. Não reclama. "Ainda sobrou uma perna. Se a Unita me pegasse, eu estava com as duas, mas morto".

     
Domingos Ernesto, 47 anos, cinco filhos, viu o sonho da casa própria despedaçar-se quando apanhava pedras para o alicerce do lar em construção, perto do aeroporto de Kuito, e pisou na mina que lhe arrancou a perna esquerda. Joaquim Kassango, 45 anos, seis filhos, perdeu uma das pernas quando foi ao mato catar lenha; Rosalina Kassova, 18 anos, quando ia à roça "apanhar de comer".

      Nati Esperança, 17 anos, teve mais sorte: escapou inteira, apenas com uma perna e um braço quebrados, quando o caminhão no qual ia comprar feijão em Caxingue para revender em Kuito detonou uma mina enterrada na estrada e voou em chamas. Havia 28 pessoas no caminhão: 13 morreram na hora.

      É uma questão de sorte ou azar. Você pode envelhecer e morrer em Angola sem jamais pisar numa mina. Mas pode também pisar, com a ponta do pé ou com o calcanhar: no primeiro caso, os médicos lhe amputarão apenas da canela para baixo; no segundo, só restará intacta a parte superior da perna, do joelho para cima. Mas você pode também tropeçar no arame invisível que detonará a temida POMZ-2. Fabricada pela finada União Soviética, a POMZ-2 fica espetada na superfície e não enterrada como as outras minas. Espalha estilhaços a 200 metros de distância, ferindo e matando muito mais gente ao mesmo tempo.

      No Hospital Provincial de Kuito, Eugenia Segunda, 33 anos, recupera-se de um acidente com a POMZ-2. No dia 10 de agosto deste ano, o grupo de oito pessoas (sete mulheres e um bebê) ia à lavra buscar comida. Dona Laurinda, a primeira da fila, acionou a mina, espalhando os estilhaços. E morreu, juntamente com as mulheres que estavam mais próximas. Eugenia, que estava por último, apenas feriu um braço e uma perna. Mas perdeu nesse acidente cinco tias e o filho Elias, um bebê de dois meses, que carregava nas costas, atado a um pano colorido, como fazem as mulheres angolanas. Outra filha de Eugenia, Augusta, geme de dor na cama ao lado. Augusta só viveu 14 anos. E já não tem uma das pernas.



      Não há mocinhos nessa guerra de mutilações sem fim. A Unita planta minas, o governo semeia minas, Angola colhe mortos e mutilados. Também minaram o território angolano, a partir de 1961, o governo colonial português e os três grupos guerrilheiros que lutavam pela Independência (MPLA, Unita e FNLA). Independência conquistada, continuaram a minar o país o MPLA, a Unita, a FNLA. E mais os cubanos que apoiavam o MPLA, os sul-africanos e os marroquinos que apoiavam a Unita, os zairenses que apoiavam a FNLA. Só as tropas sul-africanas dos tempos do apartheid, estima o governo, deixaram 2 milhões de minas como lembrança das várias tentativas de invadir Angola.

      Em 1992, a partir do acordo de paz com a Unita que levaria às primeiras eleições da história de Angola, o governo criou o Instituto Nacional de Remoção de Obstáculos e Engenhos Explosivos (Inaroee) e iniciou o difícil trabalho de desminagem. Naquele ano, removeu 31.746 minas antipessoais e 2.155 antitanques, fabricadas por 25 países, como Estados Unidos, França, Inglaterra, Áustria, Espanha, Itália, Portugal, União Soviética, África do Sul e outros cúmplices da barbárie.

      Mas a Unita perdeu a eleição e rasgou o acordo de paz. Acabou o trabalho de desminar, recomeçou o de minar. Em 1996, o Inaroee voltou ao trabalho. Mas, mesmo com o auxílio de nove ONGs do ramo, só conseguiu remover pouco mais que 14 mil minas em três anos. Se mantido esse ritmo de remoção de 4.700 artefatos por ano, e existindo, como admite o governo, 8 milhões de minas enterradas pelo país afora, serão necessários 1.700 anos para que se possa caminhar em paz em Angola. Desde que os dois lados da guerra parem de plantar sementes de mutilação e morte.

      O problema é que se pode comprar no mercado internacional de armamentos uma mina simples, mas possante o suficiente para arrebentar uma perna humana, por apenas US$ 3 (Isso mesmo: uma coca-cola e um hot-dog). E a remoção de uma única mina custa nada menos que US$ 2 mil. Ou seja: haveria que se investir US$ 16 bilhões para livrar Angola do flagelo das minas.

      Mas dos US$ 1,5 milhões de orçamento que pretendia receber este ano, inclusive para a compra de duas máquinas de desminagem mecanizada, o Inaroee recebeu...zero. O órgão, que deveria ter pelo menos 1.300 sapadores (especialistas em explosivos), tem apenas 400. Um deles se chama Manoel José Paciência e trabalha na desminagem da província de Bié.

      Paciência contabiliza três mortes na família por acidente com mina: perdeu o pai em 1987, um irmão de 22 anos, em 1997, e uma irmã de 14, em 1998. Apesar do histórico familiar desfavorável, arrisca a vida todos os dias em troca de um salário de 160 milhões de kwanzas (pouco mais que US$ 30 por mês). Detalhe: Paciência, como seus colegas, não recebe há quatro meses. Mesmo assim, continua desmontando minas e fincando estacas com o aviso de "Perigo, minas" _ que a população pobre arranca para usar como lenha...

      O diretor-geral do Inaroee chama-se general Helder Cruz. Veterano de guerra, ex-chefe de engenharia do exército angolano, o homem que hoje manda tirar minas é o mesmo que no passado mandou colocar minas para deter a Unita. "Nós estamos numa guerra, temos que usar todos os meios para defender nossos objetivos estratégicos", justifica.

      É o general quem explica a lógica que se esconde por trás do irracional. "A mina não foi feita para matar. Na batalha, um soldado ferido por uma mina precisa de dois outros soldados para removê-lo, sangue para transfusão, enfermeiros, médicos para amputar-lhe a perna etc etc. Já um soldado morto custa bem menos: um saco de plástico preto e uma etiqueta."



1 dólar = 5.000.000 de kwanzas

A educação está abandonada e um professor angolano chega a receber um salário de...


30. 000. 000
de kwanzas

Na
candonga, mercado informal que está em toda parte, um ovo custa...

1. 000. 000
de kwanzas

Logo, o salário de um professor angolano é suficiente para comprar...

30 ovos por mês.



Kuito, agosto de 1993. O dia insiste em nascer na cidade que agoniza ferida pelas bombas e a fuzilaria. Mas ainda é noite no buraco cavado embaixo da casa, no fundo do qual 16 pessoas _ a maioria mulheres e crianças _ se espremem tentando sobreviver aos obuses que há cinco meses cruzam 30 km de céu num assovio de morte antes de desabar sobre telhados e gente com um estrondo de fim de mundo. Exausto e faminto, o homem que passou o dia, a noite e a madrugada na superfície, disparando tiros com o fuzil soviético AK-47, desce de volta para o buraco. O homem não diz uma palavra à mulher: apenas tira do colo dela o filho pequeno, morde e espreme o peito inchado de leite e dali arranca a primeira refeição em muitos dias de guerra.

      A poucos metros de distância, na quase escuridão do improvisado abrigo subterrâneo, Maria Manuela da Costa Marinho, 31 anos, abre os olhos e vê o homem que mata a fome no peito da mulher que lhe pariu os filhos. Manuela não se espanta com a cena. Manuela não se espanta com coisa alguma _ desde aquela manhã, não faz muito tempo, em que viu desaparecer em um segundo a família que passou quase duas décadas a construir.

      Eram 7h30 do dia 17 de abril de 1993. Três meses antes, numa madrugada chuvosa de janeiro, a cidade acordou mais cedo com os obuses disparados pela Unita. Foram 12 dias de luta, até que o pequeno destacamento do MPLA, ajudado pela população civil, rechaçasse o inimigo. Na madrugada de 16 de março, a Unita voltou mais forte. Os primeiros obuses caíram na periferia de Kuito, na direção do aeroporto. Com o passar dos dias e semanas, as bombas foram apertando o cerco, mas Manuela, funcionária do MPLA, e o marido, o caminhoneiro Francisco, continuavam a acreditar que não era hora ainda de se mudar com a família para um abrigo debaixo da terra.

      E é assim que na manhã de 17 de abril de 1993, Manuela, o marido e os sete filhos estão sentados à mesa do mata-bicho (o desjejum angolano). Manuela, que é viciada em café, levanta-se e vai até a cozinha apanhar mais um bule. No meio do caminho de volta, ouve o estrondo, vê o fogo, sente as telhas e os tijolos desabando. O obus já lhe matou o marido e os sete filhos, mas ela só vai saber daqui a três meses, no dia em que sair do hospital onde lhe abrirão a barriga para arrancar os estilhaços da bomba e lhe arrancarão também o útero (Manuela, que perdeu sete filhos, não poderá fazer mais nenhum).

     Manuela deixa o hospital e volta para casa. Mas já não há casa. Alguém lhe diz que os que moravam por ali estão escondidos no subsolo de um hotel. Lá, ela encontra uma amiga, Enda, que pega sua mão e a guia em silêncio até o quintal do hotel, onde há uma cruz de madeira com oito nomes escritos.

      Manuela lê, um por um, os oito nomes, do marido e dos sete filhos. Lê e relê até ter certeza que está sozinha num mundo à beira do fim do mundo. Refugia-se, então, no buraco sob a casa de uma família conhecida, no fundo do qual, numa manhã escura, acordará sem se espantar com mais nada. Nem com o homem que suga do peito da mulher a força necessária para viver e seguir matando.

-----------------------------

Kuito, outubro de 1999. Os nove meses de cerco de 1993 foram-se há muito. Mas o som e a fúria da guerra ainda hoje ecoam nas fachadas varadas de tiros dos prédios, nas paredes e telhados arrancados das casas, nas cruzes espetadas nos amontoados de terra arrasada que um dia foram jardins floridos.

      Na praça central cujo nome homenageia a Independência, o prédio outrora cor-de-rosa da Assembléia tenta se manter de pé, as ruínas protegidas por um portão de ferro enferrujado onde se vê a caveira de ossos cruzados e o aviso: "Perigo, minas". À esquerda, o que sobrou do majestoso edifício-sede do Banco Nacional do Kuito, com restos de azulejos portugueses azuis na fachada em pedaços, abriga quatro ou cinco famílias famintas de deslocados de guerra. Na Escola Técnica Provincial de Saúde, futuros enfermeiros estudam sentados em tijolos e blocos de cimento num sobrado verde desbotado que é quase um buraco só de tanto obus e ninguém entende como não caiu até hoje.

      Deslocados de guerra _desta atual fase da guerra, que começou em dezembro do ano passado_ arrastam-se pelas ruas imundas. Não há luz, nem água. Um engraxate sem perna lustra o sapato encaixado na extremidade da perna postiça de um freguês que, com certeza, também pisou numa mina.

      Na Avenida Principal, o edifício Gabiconta, o mais alto da cidade, com seis andares, mantém-se de pé como símbolo-vivo de resistência. É o avesso do cartão-postal: eterniza o horror em vez do belo. Não fossem as roupas pobres penduradas nos varais e um ou outro morador que lá do alto lança o olhar perdido para a rua, ninguém imaginaria que há vida entre os escombros desse prédio que seis anos atrás foi o alvo preferencial dos obuses da Unita.

      Acima de tudo, os nove meses do cerco de 1993 estão preservados nas imagens impressas para sempre na retina dos sobreviventes. "Aqui, ficávamos nós, a atirar. Do lado de lá da rua, ficava a Unita, a atirar", conta o professor Angélico Kamonakongo, debruçado no que um dia foi a varanda do apartamento onde ainda mora, no terceiro andar do edifício Gabiconta.

      Na época da guerra, a Avenida Principal dividia a cidade em duas. Do lado esquerdo, a Unita. Do lado direito, o MPLA e a população civil, que defendia Kuito com os fuzis distribuídos pelo governo. Os obuses, disparados a 30 km de distância, desequilibravam a guerra a favor da Unita. "Teve um que caiu no segundo andar e matou 32 pessoas de uma vez", lembra Angélico.

      Mas a fome e a sede flagelavam tanto quanto as bombas. As estradas estavam interditadas, os aeroportos fechados. De vez em quando, um avião decolava de Luanda, fugia da artilharia antiaérea da Unita e lançava mantimentos de pára-quedas _ que muitas vezes caíam na metade da cidade controlada pelo inimigo. Era preciso percorrer uma distância mortal no meio da rua, equilibrando um balde na cabeça, fugindo dos franco-atiradores, para chegar até a água. Um dia, Ester, irmã do professor Angélico, conseguiu furar o cerco na ida. Ela chegou a encher o balde, mas a água derramou até a última gota no instante em que a bala de fuzil atravessou sua cabeça.

      A família organizou um grupo para sair à rua atirando e resgatar o corpo. Ester foi enterrada no quintal de casa, num caixão feito com a madeira da mesa na qual durante os tempos da provisória paz angolana fazia as refeições com os cinco filhos. Não houve tempo para velório. "Não havia tempo para chorar", lembra o irmão.

      Ester foi uma honrosa exceção. Muitos corpos passaram os meses estendidos nas ruas, até que deles nenhuma carne mais restasse. "Ficavam lá, a apodrecer. De vez em quando, passava um cachorro magro com uma mão, um crânio, uma costela de gente na boca. É que eles, os animais, também sentem fome", absolve o funcionário público Antonio Balbino.

      Manuela, que hoje trabalha como copeira da construtora brasileira Odebrecht, em Luanda, chegou a passar 12 dias sem comer, alimentando-se apenas de água e sal. Quando a fome tornava-se insuportável, era hora de organizar grupos de 80 homens e mulheres, os mais corajosos, que caminhavam sempre à noite em busca de lavouras abandonadas, muitas vezes a 100 km de distância.

      "A gente ia sem saber se voltava. Muitos morriam de fome no caminho, outros pisavam em minas e ficavam lá, com as pernas arrebentadas, a sangrar até morrer. E havia sempre os ataques da Unita", lembra Manuela, que sobreviveu à fome, à guerra, à dor e hoje tenta reconstruir a vida. "Já tenho um colchão, uma mesa e um fogão", contabiliza a mulher que um dia teve marido e sete filhos _ que a guerra converteu em oito tragédias.



1482 _ O navegante português Diogo Cão, que buscava contornar o continente africano para chegar às Índias, desembarca em Angola e proclama ter atingido oponto extremo da África. Recebido como herói em Portugal, cai em desgraça quando o engano é descoberto.

1576 _
Fundação de Luanda, base para o tráfico de escravos que abastece principalmente o Brasil (Cerca de 3 milhões de angolanos foram enviados para o Brasil entre os séculos XVI e XIX).

1641 _
A colonização portuguesa é bruscamente interrompida quando os holandeses invadem Angola e assumem o controle do tráfico de escravos.

1648 _
Os portugueses expulsam os holandeses e retomam a colonização de Angola.

1961 _ Começa a luta armada pela Independência, a partir do ataque frustrado do Movimento Popular para Libertação de Angola (MPLA), de orientação marxista, a três prisões de Luanda, na tentativa de libertar líderes nacionalistas.

1962 _
Diferenças culturais e políticas dividem o movimento pela Independência. Rebeldes do Norte formam a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), anticomunista.

1966 _
Nasce a União Nacional para Independência Total de Angola (Unita), formada por rebeldes nacionalistas do Sul. A princípio maoísta (o líder, Jonas Savimbi, foi treinado na China), a Unita torna-se anticomunista e recebe apoio do regime sul-africano do apartheid.

1974 _
Em Portugal, a Revolução dos Cravos derruba a ditadura que governava o país desde os anos 20.

1975 _ Portugal decide conceder a Independência a Angola. Pelo acordo, o poder seria dividido entre os três grupos guerrilheiros, mas a guerra civil explode nesse mesmo ano.

1976 _
O MPLA, que tinha o apoio de Cuba e União Soviética, derrota seus inimigos. O poeta e médico Agostinho Neto é proclamado presidente da socialista República Popular de Angola. O Brasil é o primeiro país a reconhecer o novo estado independente.

1979 _
Com a morte de Agostinho Neto, José Eduardo dos Santos é proclamado presidente. A FNLA se dissolve, mas a Unita continua a guerrilha, agora com apoio também dos Estados Unidos, além da África do Sul.

1990 _ Numa tentativa de aproximação com os Estados Unidos e diante das mudanças internacionais no mundo socialista, o MPLA decide abandonar o marxismo.

1991 _
O MPLA e a Unita firmam acordo de paz em Bicesse (Portugal) e convocam as primeiras eleições da história do país.

1992 _
O MPLA vence as eleições. José Eduardo dos Santos é confirmado presidente pelas urnas, mas Jonas Savimbi, líder e candidato da Unita, não aceita a derrota e recomeça a guerra civil, que devasta o país. A Unita tenta tomar Luanda, mas é rechaçada depois de três dias de combates sangrentos.

1993 _
A Unita toma cidades importantes como as capitais Huambo e Kuito, na fase mais violenta da guerra.

1994 _
MPLA e Unita assinam novo acordo de paz, em Lusaka (Zambia), que determina a desmobilização das duas tropas, a formação de um governo de união nacional e a integração da Unita a um exército nacional unificado. O cumprimento do acordo passa a ser monitorado por 7 mil soldados da ONU.

1997 _
O governo de união nacional toma posse, com a participação de vários ministros e vice-ministros da Unita, mas Savimbi, que deveria assumir a Vice-Presidência de Angola, permanece com seus homens no interior e recusa-se a entregar as jazidas de diamante controladas por ele.

1998 _ Massacres de civis em aldeias no Norte, atribuídos aos comandados de Jonas Savimbi, reiniciam conflitos entre o governo e a Unita. Em dezembro, começa a atual fase da guerra civil.



     Como as mulheres envelhecidas em cujas formas já imperfeitas se reconhece ainda os vestígios da beleza de outrora, Luanda deve ter sido bonita. Há muito não o é. E não só pelo passar do tempo. O sofrimento fez de Luanda uma cidade feia.

      Há lixo nas ruas esburacadas e boiando nos esgotos a céu aberto, carcaças de automóveis envelhecendo ao sol, muros onde se lê apelos inúteis do tipo "Proibido mijar" e "Proibido deitar lixo" ou "Nós queremos a paz em Angola" e "Força Angola, tudo passa". Mas não passa. Nas esquinas, mutilados vestindo farda do exército pedem esmola; crianças pedem comida.

      E gente. Gente que não acaba mais, milhões de pessoas em constante movimento, batalhando a água de cada dia, vendendo pão, telefone sem fio, papel higiênico, peixinho de aquário desbotado, tábua de passar roupa, jogo de faca, perfume barato, calça jeans, talco, bloco de cimento, tudo que possa virar dinheiro e, portanto, comida. Não há tempo de pensar em futuro _ a menos que futuro seja o outro nome do prazo fatal de 24 horas que todo angolano tem para encontrar comida.

      A não ser pelos panos estampados que as mulheres enrolam no corpo, Luanda é uma cidade descolorida. A palavra quer dizer "terra vermelha", mas os musseks, as favelas que dominam a paisagem da capital, são feitos de barracos cinzentos. As casas de Luanda há anos desconhecem tinta. Nos prédios incolores, as vidraças há muito partidas são trocadas por pedaços de papelão ou tabiques de madeira, o que os torna ainda mais feios.

      Por toda parte projetam-se para o alto esqueletos de edifícios que jamais serão terminados, como o famoso prédio da Lagoa, assim chamado porque um dia, em 1975, os engenheiros descobriram debaixo dos alicerces um curso d'água que há de derrubá-lo um dia desses. Mesmo assim, em 1993, quando a guerra da Unita explodiu nas províncias, 600 deslocados invadiram os 16 andares do prédio da Lagoa. Não há luz, a menos que se faça uma barrafunda (o equivalente à nossa gambiarra) e se roube energia de algum lugar, com fios desencapados perigosamente dependurados aqui e ali. Água também não tem: é preciso buscar na única torneira, no térreo, e subir até 16 andares com o balde na cabeça. Esgoto, muito menos: urina e fezes são transportadas até o térreo ou atiradas no fosso vazio do elevador. O projeto original previa varanda, que não existe: há apenas uma laje estreita, sem nenhuma proteção lateral, sobre a qual mulheres acrobatas penduram roupas e crianças equilibristas correm para lá e para cá, com o vazio e a queda para a morte a poucos centímetros dos pés descalços.

     Moradora do prédio da Lagoa, Inês Bernardo Antonio, vinda da província de Kuanza-Norte, 41 anos, "cinco filhos em vida e quatro mortos por essas doenças que dão dentro do corpo e matam crianças", carrega água 13 andares para cima, até que a coluna não agüente mais. Então, é hora de pagar aos carregadores de água, fugitivos da guerra como ela, que cobram 1 milhão de kwanzas por cada recipiente carregado. Parece muito, mas não é: apenas US$ 0,20. Não parece muito, mas é: o exato preço de um ovo _ o que em Angola pode significar a distância pequena e infinita entre dois verbos: comer e não comer.



      É como se o tempo não tivesse passado. Ou insistisse em girar em círculos para se repetir ao infinito, sempre como tragédia. O tempo que gira em torno de si mesmo tem agora, curiosamente, a forma linear de uma longa fila de crianças, mulheres e velhos sob o sol da cidade de Kuito, capital da província de Bié, no planalto central angolano. As mulheres, os velhos e as crianças esperam pelos sacos de milho que a caridade internacional lhes reserva uma vez por mês. Kuito tem 93 mil deslocados, 25 mil dos quais chegados somente entre o final de setembro e o início de outubro. Vieram de longe, fugindo da guerra no campo, e estão famintos. Mesmo assim, esperam em silêncio pelos grãos que haverão de se transformar no funji, uma comida barata, espécie de papa feita de farinha de milho e água, que comerão esses refugiados de guerra da mesma forma que comiam seus antepassados quando aqui chegou o navegante português Diogo Cão, em 1482. Continuariam os angolanos a comer o funji durante o tempo em que deixaram de ser gente para se tornar mercadoria jogada nos porões dos navios negreiros com destino ao Brasil. Acabou-se a escravidão e seguiram os angolanos a comer funji oprimidos pelo colonialismo de Portugal até o ano de 1975, o da Independência, quando, por um breve lapso de tempo, comeram funji sentindo-se finalmente livres.

    É ainda funji que come o povo pobre de Angola ao longo desse quarto de século de guerra civil. E hoje, nessa fila na cidade de Kuito, milhares de angolanos esperam o milho que haverá de se transformar no funji. Rosária Mário, 40 anos e oito filhos, abandonou a lavoura em dezembro, no dia em que a Unita chegou com tanques e armas pesadas. Rosária tem fome e verga sob o peso do saco de milho que em tese matará a fome da família pelos próximos 30 dias. Donana Maria, oito filhos, dois netos e velhice indefinida, dobra os joelhos e arrasta pelo chão as mãos em concha, já esfoladas, catando os grãos que caíram de pequenos e abençoados furos dos sacos que outros velhos carregam nas costas e mulheres arrastam pela rua afora.

     João Herculano, 19 anos, que sempre morou em Kuito e não é, portanto, um deslocado de guerra _embora tenha a mesma fome que eles_, sustenta a mãe e seis irmãos transportando os sacos de milho num carrinho de mão. João não quer dinheiro: cobra 3 kg de milho por cada saco levado do posto de distribuição até o acampamento onde vivem os fugitivos da guerra. Assim, um dia em cada mês, João leva para casa uns 20 kg de milho. "Para fazer funji", informa.

      Mas não basta aos refugiados fugirem às pressas da guerra abandonando o pouco que se tem. Não bastam a fome, a humilhação da caridade alheia, a espera ao sol pelo funji de cada dia. E aí estão os policiais de farda azul, com pedaços de borracha nas mãos, espancando velhos, mulheres e crianças para "organizar a fila", como feitores negros a castigar escravos negros, como se tudo isso não fosse hoje, mas cinco séculos atrás, no distante tempo da escravidão.

      Em Angola, o tempo que se move em círculo tem forma linear: é uma fila interminável feita de gente que talvez nunca tenha sido, de fato, livre.



      "Qual o nome da planta que dá o milho?", pergunta o professor. O aluno não pensa duas vezes antes de responder: "PAM".

     O diálogo que nunca existiu é a crítica bem-humorada dos próprios angolanos à forma como o país depende desde sempre da ajuda de organizações humanitárias, como o Programa Alimentar Mundial (PAM), braço das Nações Unidas de combate à fome no planeta.

      Somente em setembro, o PAM distribuiu 13 mil toneladas de alimento para 900 mil deslocados, pessoas que abandonam suas lavras e tudo o que têm por causa da guerra e fogem com a roupa do corpo para as capitais das províncias, onde encontrarão uma certa segurança, uma tenda de lona e uma planta chamada PAM, de onde brota o milho, o feijão, o óleo e o sal que as impede de morrer de fome.

      "As pessoas têm que comer todos os dias", lembra o representante do PAM em Angola, o italiano Francesco Strippoli. A frase poderia parecer óbvia. Mas não é. Para que as pessoas comam todos os dias, o PAM e as outras organizações humanitárias se lançam numa verdadeira operação de guerra. São caminhões viajando dias a fio por estradas muitas vezes minadas, fugindo dos ataques da guerrilha. Aviões cargueiros cruzando um espaço aéreo minado: é preciso decolar e aterrissar quase na vertical, numa espiral que revolve estômagos, até atingir altitude a salvo da artilharia antiaérea da Unita, para só então seguir em frente. E é preciso seguir em frente.

      "A situação pode piorar, e muito. Estamos no início do tempo de plantio, e não se pode plantar por causa da guerra. Quando o povo consegue colher, não há estradas seguras para escoar a produção agrícola. E não sabemos até quando o PAM terá segurança para continuar a distribuição de alimentos", teme Strippoli.

      Aos 51 anos de idade, 24 dos quais dedicados a uma guerra desigual contra a fome no mundo, o representante do PAM parece angustiado. Mas não desanima: "O povo angolano é um dos mais sofridos do mundo. Temos a obrigação de construir o dia de amanhã, deixar sementes no terreno".

      Plantar sementes onde desde há muito só se semeia minas é uma missão difícil, mas necessária e possível, acredita Strippoli. A receita? "Em primeiro lugar, não sermos cínicos diante das milhões de tragédias de Angola."



     "Também se ganha dinheiro na guerra." Inclusive honestamente _ mas nemsempre. O gás, subsidiado pelo governo, desaparece dos postos credenciados de venda, onde um botijão deveria custar 15 milhões de kwanzas (cerca de US$ 3), para materializar-se no mercado paralelo custando cinco vezes mais. Ou até 17 vezes mais, em Huambo, por exemplo. Em Kuito, a gasolina que, sendo de uso prioritário das Forças Armadas nesses tempos de guerra, anda ausente das bombas onde um litro custaria 220 mil kwanzas (cerca de US$ 0,04), aparece milagrosamente na praça, custando 10 milhões (US$ 2) para quem quiser ou puder.

      Manuela, a mulher que carrega sozinha oito tragédias nas costas, é a autora da frase que abre o parágrafo anterior. Manuela descobriu por conta própria que se ganha dinheiro na guerra.

      Recordemos que na guerra de 1993 os moradores da Kuito sitiada organizavam patrulhas para buscar comida, em caminhadas noturnas de até 100 km de distância, andando por território minado, sob o risco permanente de emboscadas da Unita. Mas nem todos os famintos participavam dessas missões meio suicidas.

      "Os que tinham medo e dinheiro, os comerciantes por exemplo, ficavam em segurança. E pagavam pela comida que a gente havia arriscado a vida para conseguir", lembra Manuela.

      Uma caneca de milho era vendida aos ricos e medrosos por 200 mil kwanzas (US$0,04). Um copo d'água, que ao pobre custava, às vezes, uma bala na cabeça, saía quase de graça para os ricos: 50 mil kwanzas (US$ 0,01). Ninguém ganhou muito dinheiro. "Eu tinha milho, mas não tinha sal. Então, vendia um pouco de milho para comprar um pouco de sal", lembra Manuela.

      Mas na guerra também se ganha muito dinheiro. Como demonstram os Mercedez-Benz, os Volvo, os Audi (US$ 55 mil o modelo A-6) que arriscam as suspensões eletrônicas de última geração nos velhos buracos do asfalto de Luanda. Protegidos pelo ar condicionado, sequer abrem os vidros elétricos. Nem chegam a ouvir os gritos dos vendedores pobres que oferecem pilhas de rádio, papel higiênico cor-de-rosa, lâmpadas fluorescentes. Talvez nem vejam os mutilados que estendem a mão.



     Em pleno centro de Luanda, o Havana Café é um enclave de riqueza no país destroçado pela guerra e a miséria sem fim. Nessa noite de sexta-feira, enquanto pais ricos desembolsam US$ 120 para aplaudir o brasileiro Emílio Santiago, filhos ricos dançam no Havana Café, embalados pelos sucessos da MTV. Penteados bem feitos, roupas de grife, perfumes da moda.

     Alegres, bonitos, perfumados, pagam 36 milhões de kwanzas (cerca de US$ 7) por uma caipirinha de maracujá. Vale, portanto, mais que o salário de um professor angolano (30 milhões) ou mais do que ganham juntos um cabo (20 milhões) e um soldado (13 milhões) para matar e morrer no front, a caipirinha que se bebe nessa noite de sexta-feira em Luanda, num bar cuja parede em pátina vermelha exibe o retrato de Che Guevara, o revolucionário que dedicou a vida a banir as misérias do mundo.

      São quase duas da madrugada. Do lado de dentro e na calçada do bar lotado,sob o olhar atento dos seguranças, os filhos da guerra de Angola bebem, dançam, namoram e riem (Quem disse que dinheiro não traz felicidade?). Mas eis que de repente a outra Angola invade o campo de visão dos jovens que empunham garrafinhas de cerveja sul-africana de 15 milhões de kwanzas: em frente ao Havana Café passa agora um caminhão de transporte coletivo, sem capota, desses de carregar angolano pobre, apinhado de gente.

      O caminhão traz pendurados nas barras de ferro, suados e amarrotados, os jovens da outra Angola, que também vestem suas roupas de sexta-feira. Roupas pobres, mas as melhores que a falta de dinheiro pode comprar.

      As duas Angolas cruzam os olhares por uma fração de segundo. Não se reconhecem. Os jovens do Havana Café suspiram de alívio: sabem que jamais precisarão embarcar num caminhão como aquele, mesmo que a guerra dure para sempre. Os jovens do caminhão também suspiram, mas por saber que nunca entrarão num bar como aquele _ ainda que a guerra um dia acabe.